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NaoTomeTristeza
por Sister Kiran
 
Sister Kiran explica a diferença entre dor e tristeza, porque é que a tristeza dos outros não é para consumo pessoal e como evitar fazer disso uma refeição!
 
 
“Faça aos outros o que gostava que lhe fizessem a si”; “Não julgue para não ser julgado”.
 
Tendo sido criada como cristã, a sabedoria da Regra de Ouro e as suas derivadas formaram grande parte do meu entendimento sobre como é que alguém deveria viver a sua vida. Também herdei uma certa visão confusa do meu próprio valor e uma forte perceção dos meus próprios defeitos, o que significa que o meu pior medo era que o criticismo e a condenação “me fossem aplicados”. Portanto, eu fazia um esforço especial para não julgar e perdoar, na esperança que isso “me fosse feito”.
 
Quando alguma coisa me era feita, da qual eu tomava tristeza, eu adicionava-a à minha paisagem interna de baixa auto-estima, pois acreditava que a tristeza era a minha sina. “Mea culpa” era o meu lema subconsciente. Ainda que, frequentemente, o meu sentimento imediato fosse “Eu não mereço isto!”, sabendo que “conforme eu semeio, assim eu colho”, eu recusava-me a dar tristeza deliberadamente a alguém como retorno. Ainda assim, eu não estava além de culpar e amaldiçoar silenciosamente a pessoa que achava ser a responsável, e secretamente desejava-lhe tristeza.
 
Sei que não sou a única que faz isso! Quantas vezes fechamos os nossos lábios e condenamos os outros nas nossas mentes. Acusamos e culpamos os outros através dos nossos pensamentos enquanto fingimos um sorriso. Ou excluímos aquela pessoa da nossa lista e gradualmente desculpamo-nos para não manter a sua companhia. Pensamos que isso não tem importância, pois não há nenhuma evidência clara de que, de facto, tenhamos magoado alguém. Sentimo-nos justificados no nosso julgamento e nunca achamos que poderá haver um preço a pagar ao fazê-lo. Na maioria das vezes nem sequer realizamos que fizemos um julgamento. A nossa atitude parece tão “certa”, tão correta. Até mesmo quando os nossos relacionamentos próximos não estão a ir muito bem, nunca consideramos que a nossa própria atitude mental tenha algo a ver com isso.
 
A minha procura contínua por sabedoria, finalmente levou-me para além dos ensinamentos da fé cristã, além das incursões em muitos outros estudos religiosos, filosóficos e ocultos – a um caminho mais espiritual, no qual me tenho sentido bem há mais de 27 anos. Aprendi (e ainda estou a aprender) que a tristeza não é a minha sina fundamental, mas é uma condição temporária que tem um começo e um fim. Estou a adquirir um entendimento de mim mesma, o qual inclui uma visão positiva e saudável da minha natureza original; um entendimento que me encoraja a aceitar os meus defeitos, sem negar o meu valor como um indivíduo. Singularmente, descobri que a aceitação compassiva dos meus defeitos é o pré-requisito para ir além deles.
 
Estava há pouco tempo neste caminho, quando encontrei o slogan: “Não dê tristeza, não tome tristeza”. “Que mudança estranha da Regra Dourada era esta?” – questionei-me. A segunda metade dessa regra confundia-me, porque enquanto entendia que a tristeza voltaria para mim se repreendesse alguém, enquanto aceitava a responsabilidade de não magoar ninguém, eu não entendia como é que era possível evitar tomar tristeza. Tanto quanto eu conseguia ver, a tristeza simplesmente vem sem ser chamada, como parte da vida. Eu não podia ver qualquer conexão entre aquilo que estava a receber com aquilo que tinha feito aos outros. Será que tomar tristeza não é simplesmente uma condição humana natural?
 
Gradualmente, dois aspetos do conhecimento espiritual ajudaram-me a entender as implicações deste slogan. O primeiro é um profundo entendimento da grande Lei do Karma, cuja essência está imersa na Regra Dourada. Comecei a perceber que até o movimento dos meus pensamentos e dos sentimentos são ações e reações subtis também sujeitas à Lei do Karma. Gary Zukav, no seu livro revolucionário “The Seat of the Soul” (O Assento da Alma), explica com grande clareza:
 
“Cada ação, pensamento e sentimento são motivados por uma intenção, e essa intenção é uma causa que existe como algo que tem um efeito. Se participamos na causa, não nos é possível não participarmos no efeito. Desta forma mais profunda, somos responsáveis por cada uma das nossas ações, pensamentos e sentimentos; que é o mesmo que dizer, por cada uma das nossas intenções. Nós devemos participar do fruto de cada uma das nossas intenções. É, portanto, sábio tornarmo-nos conscientes das muitas intenções que a nossa experiência acusa, descobrir as intenções e os efeitos que elas produzem e escolher as nossas intenções de acordo com os efeitos que desejamos produzir...
 
Toda a causa que ainda não produziu o seu efeito é um evento que ainda não atingiu a sua compleição. É um desequilíbrio de energia que está no processo de se tornar equilibrado.”
 
O karma funciona no princípio da Terceira Lei do Movimento de Newton, “Para cada ação há uma reação igual e oposta”. No entanto, como Zukav o descreve, o karma é uma “dinâmica energética impessoal”.
 
“O karma não é uma dinâmica moral. A moralidade é uma criação humana. O Universo não julga. A Lei do Karma governa o equilíbrio de energia no nosso sistema de moralidade e no sistema dos nossos vizinhos. Ela serve à humanidade como um professor de responsabilidade impessoal e universal.”
 
Pelo facto de ser uma “dinâmica energética impessoal”, não é um equilíbrio simplista que acontece, como em “olho por olho, dente por dente” ou “pagar na mesma moeda”. É por isso que tentar “acertar as contas” não funciona. Tentar acertar as contas desse modo cria karma adicional ou, nos termos de Zukav, cria “outro desequilíbrio de energia que, por sua vez, deve ser equilibrado”.
 
O segundo aspeto do conhecimento espiritual, que me ajuda a entender o slogan “Não dê tristeza, não tome tristeza”, é o conceito da reencarnação; o qual diz que a dinâmica karmica e de equilíbrio de energia da minha jornada como uma alma imortal, continua no tempo e através de vários nascimentos. Isso explica porque é que a conexão entre um efeito e a sua causa subjacente não é muitas vezes evidente, ao que Zukav chama de personalidade “cinco-sensorial” ou aquilo que poderia ser chamado de “o eu consciente do corpo”. Isto também significa que tudo o que vai, eventualmente volta, sem exceção.
 
Quando percebi que nada pode escapar à Lei do Karma, tornei-me ainda mais cuidadosa em suspender o julgamento e prevenir o desenvolvimento de emoções negativas em relação a alguém, independentemente do que eles possam estar a fazer. No entanto, agora, eu mantenho esta precaução, não pelo medo do que os outros me podem fazer, mas do que eu estou a fazer comigo. Gradualmente, começo a aceitar que qualquer tristeza que vem até mim é o efeito de um evento que eu mesma coloquei em movimento, um dia; que estou a participar do fruto de alguma intenção minha do passado.
 
Mas então, a questão ainda permanece: “Como é que posso não tomar tristeza?”.
 
Primeiramente, deixem-me distinguir entre dor e tristeza. Pelo nosso uso frequente da expressão “dor e tristeza” é evidente que ambas não são a mesma coisa. A dor é um sinal ou sintoma que nos diz que algo está errado, que um desequilíbrio está presente, e que há necessidade de cura. Não é propriamente o desequilíbrio ou a doença.
 
Na nossa cultura, somos condicionados a evitar a dor a todo custo. Isto acontece porque não entendemos a dor. Ao fazer a dor ir-se embora, quer seja através de drogas, de álcool, dando vazão à nossa raiva, trabalhando, ou através de outros comportamentos disfuncionais, estamos simplesmente a tratar os sintomas e não a causa subjacente da dor. Estamos, de facto, a suprimir a dor. Qualquer coisa suprimida ou negada cria pressão e entra em erupção, normalmente de uma forma mais séria, mais cedo ou mais tarde. Não importa se estamos a lidar com a dor no corpo, a dor num relacionamento, a dor entre o que temos e o que não temos. Ou a dor entre raças ou nações.
 
A tristeza é a minha reação emocional à dor. É a depressão que pode acompanhar a doença crónica; o pesar que acompanha uma perda, quer seja a perda da dignidade ou a perda de um amigo. É o medo e a desconfiança que seguem a dor de ser enganado, a indignação justa que flameja quando alguém é insultado, a raiva que segue o desconforto de ser manipulado.
 
A cura começa quando aceito a dor. O karma é criado quando expresso a tristeza ou outra emoção negativa que acompanha a dor. A aceitação da dor não significa invocá-la. Também não significa simplesmente tolerá-la ou suportá-la. Significa fazer uma conexão entre a dor e a sua causa karmica subjacente. A fim de me curar, devo-me permitir sentir a dor, a ferida; não para me demorar nela, mas para conhecer e entender o que ela me está a tentar dizer. Posso aliviar a dor ao tomar um medicamento, ao partilhar ou confidenciar com alguém que se importa comigo e em quem eu posso confiar, ao trabalhar e transformar as minhas emoções através da meditação, de aconselhamento ou de outros meios positivos. Mas se realmente me quero curar, não posso negá-la, escapar dela, ou racionalizá-la. E definitivamente não serei curado se tomar tristeza da dor ao acumular culpa, vergonha, julgamento, raiva e recriminações em mim ou nos outros por causa disso. Ao fazê-lo, estou a adicionar o insulto à injúria, a abrigar rancores e ressentimentos, além de esgotar a minha vitalidade espiritual.
 
Posso aprender a aceitar a dor e a curar os meus desequilíbrios karmicos somente quando tiver uma forte perceção da minha dignidade ou valor como ser humano. No nível mais profundo e interno, a forma como penso sobre mim, o respeito que tenho por mim mesmo é o que determina a minha força espiritual e a vitalidade. A fim de curar os meus desequilíbrios karmicos não devo apenas entender a causa e o tratamento do desequilíbrio, devo também saber como fortalecer-me como um ser completo. “Espere um segundo”, deve estar a pensar. “Está tudo muito bem, mas será que aquele que me magoou não tem responsabilidade? Eu tornei-me simplesmente um mártir? Onde está a justiça nisto tudo?”.
 
A Lei do Karma garante que vivemos num universo justo. Devo-me lembrar que quem quer que me esteja a ferir irá receber de volta aquilo que ele ou ela está a distribuir, na mesma proporção – não de mim, mas de alguém ou de algum lugar. Finalmente, ele ou ela experimentará inevitavelmente a tristeza que estou a receber agora. Mas será que este conhecimento me torna mais feliz? Dá-me satisfação? Eu penso, “Muito bem, um dia você receberá aquilo que é seu!”. Se assim for, então é como se eu desejasse a tristeza que estou a sentir à pessoa que me feriu. Estamos a rebater a dor e a tristeza para a frente e para trás, entre, nós como bolas de ténis. A tristeza que lhes estou a desejar eventualmente voltará para mim. Um melhor modo de ação é a compaixão. Que em vez disso eu pense, “Que eles nunca sofram o que eu estou a sofrer agora.” Que nós os perdoemos, como Jesus, pois eles não sabem o que fazem. Esta intenção pára o rebater da bola e o jogo.
 
Um entendimento profundo do karma pode-nos dar uma perspetiva, à qual Zukav chama de “justiça sem-julgamento”. A justiça sem-julgamento é uma perceção que lhe permite ver tudo na vida, sem envolver as suas emoções negativas. A justiça sem julgamento exclui-o do trabalho auto-imposto de juiz e júri, pois você sabe que tudo está a ser visto, nada escapa à Lei do Karma, e isso traz entendimento adicional e compaixão. A justiça sem julgamento é a liberdade de ver o que você vê e de experimentar o que você experimenta, sem responder negativamente.
 
Se, de facto, eu não der tristeza ou tomar tristeza, que tipo de pessoa é que me tornarei? Muito bem, talvez eu não julgue, mas será que me tornarei insensível aos outros? Será que não é importante ter empatia com a dor do outro, experimentá-la como se fosse minha? Há um ditado que diz “Ao partilhar a felicidade, ela duplica, ao partilhar a tristeza, ela reduz-se para metade”. Será que se todos nós partilhássemos as tristezas dos outros haveria menos tristeza no mundo? Não, não haveria. Sejamos honestos. Sentir a dor do outro faz com que me sinta vivo e envolvido em vez de aliviar a sua tristeza.
 
Às vezes tomo tristeza pelo que aconteceu no passado. Lembro-me daquilo, revivo-o, arrependo-me e sinto remorsos. Você poderia pensar que isso por si só poderia ser um modo de equilibrar a energia, mas na verdade isso ainda o esgota mais, porque não estou a gerar algo positivo com a minha energia no presente. O que quer que eu tenha de acertar do passado, isso virá até mim mais cedo ou mais tarde no presente, pelo que não preciso de continuar a ir ao passado para chamá-lo. Muitas tradições de fé falam das consequências terríveis de olhar para trás. Há modos de cura muito mais positivos. Assim como uma pessoa doente pode mudar a sua dieta e começar um programa de exercícios, então também posso começar a nutrir-me com pensamentos e sentimentos positivos e a envolver-me em ações positivas e altruístas. Esta é uma forma relativamente indolor de se retificarem, até mesmo, desequilíbrios karmicos de longa data.
 
Às vezes, tomo tristeza de coisas que não me deveriam causar tristeza. Alguém inadvertidamente faz alguma coisa e começo a interpretar as ações da pessoa e a construir um caso contra ele ou ela. Então, finalmente julgo/decido o caso e dou o veredito: “Ele ou ela é desta ou da outra maneira”. Aprender a não tomar tristeza também significa aprender como ser menos sensível ou vulnerável, como não tomar as coisas pessoalmente.
 
A sensibilidade que reflete um temperamento irritável, delicado ou facilmente ofendido é uma sensibilidade enraizada na insatisfação com o eu, na baixa auto-estima. É essa sensibilidade que me convence de que sou uma vítima e que então me rouba a autoconsciência, transforma a minha responsabilidade em reatividade e deixa-me sem poder. Então, como não tomar tristeza? Desenvolva um relacionamento gentil e compassivo consigo mesmo, uma perceção sólida do seu próprio valor. Preste atenção às mensagens dos seus sentimentos, aprenda com a sua dor, aceite a responsabilidade pelo seu karma. Perdoe os outros e envie-lhes somente bons votos e vibrações positivas. Deixe o passado ser passado. Permaneça compassivo, mas não afetado pela dor dos outros, não tome as coisas pessoalmente.
 
Em todas as tradições existem memórias e visões de um mundo livre de tristeza. Tenha fé de que um dia isso se tornará realidade, e que nós podemos trazê-lo à vida o mais breve possível ao parar de dar e receber tristeza. Que decidamos dar e tomar apenas felicidade.
 
Dicas para aliviar a dor e parar de tomar tristeza
• Quando acontecer algo doloroso, veja a dor como um mensageiro. Observe as suas reações emocionais e entenda-as como algo que você fez a alguém no passado. Ame a dor por avisá-lo e perdoe-se. Envie amor, perdão e bons votos puros à pessoa que o está a magoar.
• Seja pró-ativo. Seja aquele que impede a tristeza de continuar. Perceba o excelente retorno kármico que irá criar ao fazê-lo.
• Não permaneça na dor, em comentários dolorosos, etc; isto é, observe os seus pensamentos.
• Não mantenha sentimentos dolorosos internamente. Deixe-os sair para um ambiente seguro, onde eles não o prejudiquem ou aos outros. Por exemplo, vá à praia e lance pedras no oceano, escale uma montanha e lamente-se para a lua. Ou, confidencie os seus problemas a alguém em quem pode confiar e que não seja afetado pelo que disser, que não coscuvilhe com outros ou que use isso contra si.
• Tenha uma perspetiva sobre os seus problemas ao olhá-los com uma visão abrangente da realidade.
• Deixe que o passado seja passado.
• Mude a energia! Coloque uma música animada e cante ou dance.
• Encontre algo que o faça sorrir ou rir. Passe um momento de qualidade com uma criança.
• Limpe o seu quarto, ou um armário, ou a cave. Abra as janelas, deixe entrar a luz e o ar.
• Crie algum bom karma: Dê e tome apenas felicidade.
 
Sister Kiran é Coordenadora do Centro da Brahma Kumaris em Eugene, Oregon, EUA.